Dois pra lá, dois pra cá
e um acolá
Domingo, 3 de Outubro de 2010
Dona Ivonne, nas eleições
Domingo, 8:15hs da manhã, dia das Eleições.
Eu: Mãe, qual é o número da Marina mesmo? To na dúvida...acho que é 43
Mãe: Da Marina não sei...vota no Serra, menina.
Eu: Não, que mané Serra, vou votar na Marina.
Mãe: Vou ligar pra Dite (vizinha) pra ver se ela sabe...
Prestou atenção no que eu relatei? A minha mãe LIGOU PARA A CASA DE UMA PESSOA PARA SABER O NUMERO DE UM CANDIDATO!!!!!!
Mãe: Alô, eu queria falar com a dona da casa (minha mãe sempre faz essa brincadeira com ela...e com o sempre, só ela que acha graça dessa piadela) RISADA. Oi Dite, sou eu (pergunta obvia: eu quem?)..a Ivonne! Tudo bem, querida? (se ligassem pra minha casa domingo, às 8hs da manhã, eu não iria achar tudo bem não...). Então Dite, eu queria saber se você sabe o número da Marina...
Eu: A candidata - falei em voz baixa, como já que prevendo que a pessoa do outro lado da linha não ligaria o nome à ocasião.
Mãe: A candidata à Presidência, Dite! A Marina...uma ESCURINHA (a Dite é NEGRA)... ela é do PV. Sabe não, né?! Ah, mas você não vai votar na Dilma não, né?! (MINHA MÃE FAZENDO BOCA-DE-URNA VIA TELEFONE) Vota nela não!!! Se o quilo da carne já está 17,00 com ela vai pra 25,00, hein!! Vota na Marina (só lembrando que no inicio desse post ela tentou me convencer a votar NO SERRA)...ô Dite, a Marina é uma PRE....(ainda bem que ela não completou a frase..e ainda bem que o eleitor não pode ser preso nessa época) ESCURA... ela é séria, não é pau-mandado feito a Dilma, tem bom plano de governo (ou seja, em menos de 2 minutos minha mãe virou cabo-eleitoral da Marina)..vota nela, hein!
Desligou o telefone.
Eu: Mãe, é 43 mesmo...to indo lá votar.
Mãe: E o do Serra é 45?
Eu: Que Serra?! Agora que você defendeu a Marina vai votar nela.
E votou.
FIM (musiquinha da urna eletrônica)
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
Araújo Gump: o contador de estórias
Maluf – (Dicionário Aurélio) Pessoa que vive de contar lorotas a seu semelhante. Portadora de tamanha eloquência e confiança, que acaba por convencer os demais de que seus feitos são inacreditáveis.
Pois é. Quem não conhece um “Maluf” ou já ouviu falar de um? Eu já. Não tive a oportunidade de desfrutar da companhia, mas cresci ouvindo as estórias do seu Araújo, compadre da minha avó. Pescador viraria piada perto dos ‘causos’ desse senhorzinho baiano de corpo franzino, que já passou por poucas e boas durante suas caçadas com seu fiel escudeiro Clodoaldo . Sou contra homenagens póstumas. Por isso, dedico este post – a tempo – a um dos maiores “caozeiros” que o nordeste teve a chance de abrigar. Farei até um TOP 3:
Pois é. Quem não conhece um “Maluf” ou já ouviu falar de um? Eu já. Não tive a oportunidade de desfrutar da companhia, mas cresci ouvindo as estórias do seu Araújo, compadre da minha avó. Pescador viraria piada perto dos ‘causos’ desse senhorzinho baiano de corpo franzino, que já passou por poucas e boas durante suas caçadas com seu fiel escudeiro Clodoaldo . Sou contra homenagens póstumas. Por isso, dedico este post – a tempo – a um dos maiores “caozeiros” que o nordeste teve a chance de abrigar. Farei até um TOP 3:
3º LUGAR: IEMANJÁ

Você já viu Iemanjá? Eu não, mas o seu Araújo já! Exatamente. E não foi durante a passagem de ano. Foi numa cachoeira. Isso mesmo. Sinto informar-lhe companheiro, mas Iemanjá não é peixe de água salgada. É de água doce. E mais: é menor que o Nelson Ned, menor que os ursinhos Gummy. Ela é uma espécie de miniatura, igual aos vilões de Power Rangers quando eram derrotados e minimizados pelo Zod. Surpreso (a)? Lá vai estória.....
“Era uma manhã clara e convidativa de domingo. Era verão, 19 de dezembro ( ao melhor estilo “Berenice, Segura” – vide youtube). Seu Araújo e Clodoaldo resolveram fazer o que mais gostavam (depois de contar lorotas, claro): caçar. Assim sendo, ambos seguiram mata adentro à procura da batida perfeita. A certa altura da empreitada, bateu aquela sede. Como eles não tinham a seu dispor uma latinha de Coca-Cola optaram pelo mais óbvio: água. Se dirigiram então à cachoeira do lugar. Foi então que Seu Araújo teve a grande surpresa. Enquanto enchia sua cuia com a água límpida e sem essência de laranja e/ou limão, o homem sentiu que ela estava um pouco mais pesada que o normal.
- Ouro?
- Um pneu?
- Um pinguim?
Não, meus caros. Era a Rainha das águas, Iemanjá, em carne e osso (cerca de 300 gramas de pura divindade). Extasiado com a descoberta, sem saber o que falar ou como agir, só restou ao pobre homem ouvir a súplica da deusa:
- Me ponha na água, Araújo!
Fim”.
Isso mesmo. Além de caber dentro de uma cuia e morar em água doce, Iemanjá SABIA o nome do Seu Araújo. E ai de quem duvidasse da história:
- To mentindo cumpadre?
- Ta não. Eu vi – retrucava Clodoaldo.
2º LUGAR: A GIA

Sabe o que é gia, né? É um prima da rã. Então. Seu Araújo ficou com vontade de comer gia. (não faça essa cara de nojo: “ecatch, comer sapo!” No nordeste é comum e em alguns lugares é até uma iguaria). Sendo assim, lá foram o destemido caçador e seu fiel escudeiro para o matinho caçar o almoço do dia.....
“.......Mato vai, mato vem, até que eles avistaram a presa: uma gia papuda, gorda, no ponto! (“ahh, ela ia pegar ônibus! Akoaskoaskaosksoak” – disse o retardado).
Seu Araújo não pensou duas vezes. Com sua espingarda a tiracolo o velhinho mirou em direção ao seu futuro rango. O tiro seria rápido, sem direito ao último coaxar do animal quando de repente, fez-se o inesperado.
Lá vai: a gia virou-se para o Seu Araújo e, como o preso condenado a morte prestes a receber a injeção letal, olhou no fundo dos olhos do seu algoz e disse:
- Araúuujo!!
Penalizado com o olhar da gia que suplicava por clemência, Seu Araújo abaixou a espingarda, virou-se para seu cumpadre e disse: “Vamos embora, Clodoaldo".
Fim da história”.
Isso mesmo. A gia TAMBÉM SABIA o nome do Seu Araújo. Mais que isso: ela FALAVA. E ai de quem duvidasse da história:
- To mentindo cumpadre?
- Ta não. Eu vi – retrucava Clodoaldo.
- Araúuujo!!
Penalizado com o olhar da gia que suplicava por clemência, Seu Araújo abaixou a espingarda, virou-se para seu cumpadre e disse: “Vamos embora, Clodoaldo".
Fim da história”.
Isso mesmo. A gia TAMBÉM SABIA o nome do Seu Araújo. Mais que isso: ela FALAVA. E ai de quem duvidasse da história:
- To mentindo cumpadre?
- Ta não. Eu vi – retrucava Clodoaldo.
1º: A MACACA
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Já te mandaram pentear macaco? Provavelmente. Mas e se esse macaco soubesse contar? Pense nisso. Enquanto você reflete, contarei o último e mais dramático causo do seu Araújo...
“Se você pensou: 'ele estava caçando na mata'. Parabéns! Você acertou. Seu Araújo e Clodoaldo bancavam mais uma vez o remake nordestino de Tarzan e Jane quando o velhinho simpático avistou o almoço do fim de semana: um macaco. (Você novamente deve estar pensando: - Nossa, que velho infeliz! Come sapo, come macaco..só coisa nojenta. Daqui a pouco ele vai comer salsicha também!)
E novamente ele fez o que qualquer caçador faria: pegou o seu trabuco, carregou, mirou fixamente no alvo e............. E novamente a isca avistou o seu algoz, olhou profundamente em seus olhos e............ . E CONTOU ATÉ CINCO! Isso mesmo. A macaca era mãe e tinha cinco macaquinhos. EU DISSE CINCO!! E a macaca apontou para cada uma das suas crias e contou até CINCO COM OS DEDOS numa clara menção de que cinco lindos órfãos ficariam sem mãe. (Não está faltando nada? Você deve está pensando). E mais uma vez ela TAMBÉM SABIA o nome do seu Araújo. E ai de quem duvidasse da história:
- To mentindo cumpadre?
- Ta não. Eu vi – retrucava Clodoaldo
Fim da história".
NOTA DA REDAÇÃO: até o fechamento dessa matéria o departamento de apuração não conseguiu comprovar cientificamente a veracidade dos fatos aqui relatados que foram baseados unicamente nos relatos da minha mãe (que só por ser minha mãe, já perde a credibilidade). O Fantástico ainda tentou uma exclusiva com o Seu Araújo, mas o TRE embargou a empreitada temendo que o senhor fosse eleito em outubro mesmo sem sequer ter-se candidatado. Sabe como é...brasileiro gosta de um bom contador de estória....
PS: Seu Araújo, é de mentirosos como o senhor que o Brasil precisa
Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Da série: Mancadas
Papo no ônibus. Quem não gosta dá um passo pra frente! Ou dá um pulinho, sei lá. Eu não gosto. Só não darei o passo pra frente porque, além de ser ridículo, eu estou sentada. Pois bem. Eu nunca gostei de conversar por três razões: 1- quase sempre estou ouvindo música. 2- ou estou lendo. 3- ou estou olhando pela janela pensando em mil coisas. 4- ou estou fazendo os três anteriores ao mesmo tempo (desculpem rapazes, sou mulher..ha!). Falando em pensar, uma dessas mil coisas que passam pela minha cabeça, é o porquê de eu ter dado 4 razões e escrito que eram apenas 3.
A questão é que na semana passada aquilo aconteceu. Ia do centro do Rio para Niterói. Tudo que eu esperava era uma viagem tranquila. Eis que no ponto seguinte, José adentra o coletivo com a ajuda do amigo e da cadeira de rodas. Isso mesmo. Seu nome era José e ele tinha um problema. Quer dizer. Seu nome era José e ele não tinha UM problema. José não tinha METADE das pernas. Ou seja, era meio problema.
Tentarei reproduzir abaixo, o desenrolar desse encontro com o máximo de precisão quanto ao conteúdo do diálogo. Lá vai:
José: Licença.
Eu acenei com a cabeça e sorri. Não tinha ouvido muito bem o que ele tinha me falado. Se José tivesse dito: “fala piranha”, eu teria sorrido sem saber.
J: Engarrafado, né?!
Sorri novamente e soltei a primeira coisa que eu sempre falo nessas horas.
- Pois é. Não anda.
(PUTA MERDA)
J: Ta ouvindo música?
Naquele momento percebi que José era esperto. Porque perceber que aqueles fios que desciam da minha orelha eram fones de ouvido foi bem perspicaz da parte dele. Porque eu poderia ter deixado o cabelo do ouvido crescer. Ou poderia estar sendo devorada pelo Alien com suas garras nojentas (o que seria uma lástima. Já que se Alien tb era um passageiro, poderia ter se sentado ao lado de José).
- Oi?
J: Ta ouvindo música?
S: To.
J: Que música?
Eu adoro a Beth Carvalho. Logo, tenho cd dela. E uma das canções que eu mais gosto foi uma regravação dela que eu acabara de ouvir.
- Andança.
(PUTA MERDA)
J: Andança..Andança é do Dorival Caymmi. Grande compositor..
S: É. Baiano, mas tinha um pé no Rio. Um pé não..os dois né? Já que ele morou aqui por muito tempo..
Ao final da frase eu dei uma risadinha pra ser simpática e explicar o trocadilho, mas a risada logo se foi quando meus olhos bateram no toquinho das pernas. Foi um choque de realidade.
J: Eu gosto de Caymmi. Gosto muito da Bahia. Já morei lá.
S: Ah, legal. Minha mãe é de lá (frase curinga para qualquer pessoa que diga gostar da Bahia de Todos os Santos)
J: Morei dos 5 aos 17 anos. Trabalhava numa fábrica. Foi lá que eu sofri o acidente. Uma explosão no (PAUSA: ele me falou o nome da máquina, mas eu não me lembro) e eu fiquei assim.
Dei uma olhada de novo para bancar a interessada. Mas eu já sabia...
J: Era para eu estar morto. Dei sorte...
Pois é. Quase perguntei se essa sorte vinha de algum pé de coelho, mas desisti.
S: É né...Ah, mas o importante é que o senhor está vivo. Pior seria se o senhor quisesse ser jogador de futebol. Mas como trabalhava numa fábrica, não fica impedido de exercer a profissão..
J: Meu sonho era ser jogador de futebol. Eu até jogava no time da região e tinha futuro.
(PUTA MERDA)
S: Ah, mas bola pra frente. Tudo vai dar certo. O importante é que o senhor se reergueu. Quando a gente cai precisa ficar de pé.
(PUTA MERDA)
J: Você não vê esse goleiro Bruno. O rapaz tinha tudo na vida e jogou fora.
S: Pois é. Pisou na bola feio. Quantos garotos esperam por uma chance pra jogar no Flamengo, chegar onde ele chegou. Ele mesmo. Demorou muito pra ser o melhor goleiro do Brasil na época. Andou, andou e morreu na praia (ok, o certo é nadou. Mas quem disse que eu lembrei?)
J: Só se fala nisso. E o corpo da mulher? Será que ela está viva?
S: Sei lá. Se me disserem que sim, eu acredito. Se me disserem que não, também. Não duvido de mais nada. Ainda acho que tem muita coisa mal explicada, sem pé nem cabeça.
J: Mas a policia fala que o cabeça é o Bruno.
S: Verdade. Cabeça tem, só não tem o pé...
Olho pro cotoco das pernas e quero morrer.
J: Ta que nem eu (riso)
Soltei uma gargalhada na hora. Meio que por surpresa, meio que por nervoso. Mas ali não ria pela desgraça alheia e sim, pela graça alheia. Nisso, José surgiu com um jornal dobrado e perguntou se eu queria ler. Peguei-o. Desculpe. Eu escrevi jornal? Quis dizer “Meia Hora”. Após dar uma passada pela primeira página que sem dúvidas, se torcida em um balde renovaria o estoque de sangue do Hemorio, quis bancar a simpática e falei:
S: Aqui ta falando daquela namorada do Bruno. A tal da Fernanda..
J: Ah, é? Onde que eu não vi?
S: Aqui no pé da página..
(OI?)
Enquanto José lia, vi que o cadaço do meu All Star estava frouxo e resolvi apertá-lo.
J: Desamarrou?
S: Ta quase.
J: Você amarra seu tênis de um jeito diferente.
S: É, eu não costumo amarrar muito forte porque dói o meu joanete. Sabe quando o dedo mindinho fica apertando no sapato...
Antes de terminar a frase, me dei conta do que estava falando e me apeguei a primeira coisa que vi pela frente. Estava na página da Gata do Meia Hora e aquela bunda foi a minha salvação.
S: O senhor vê, essas meninas mostram a bunda como se dessem “bom dia”. Qual o respeito que elas podem querer? E tem uma mais feia que a outra. Teve uma vez que uma garota posou com uma tanga de oncinha..ridícula.
J: A minha sobrinha já posou...Mas não precisa ficar com vergonha não, eu tb não sou a favor não. Já falei com ela que a gente só consegue um futuro com emprego.
S: É, tem que correr atrás se não a vida passa e você fica olhando sentado...
(PUTA MERDA). Mudando de assunto...
S: Então, acho que o trânsito ta bem melhor. Vai ver foi algum acidente. Tem sempre um imbecil ruim de roda
Olho pra cadeira de rodas...
S: Mas tem gente muito boa também (tentando consertar a merda). Ah e sobre o caso Bruno, também tem essa questão do menor dar vários depoimentos né. A cada hora ele mente mais
J: Parece que uma hora ele fala uma coisa. Disse que apanhou da polícia, mas disseram que era mentira.
S: Claro que é. E logo viram que era safadeza dele. A mentira tem perna curta..
Antes que eu tentasse consertar isso também já tínhamos chegado ao ponto do José. Ele gentilmente se despediu e apesar de todas as minhas gafes, disse que foi um prazer ter me conhecido. O ônibus parou e o amigo dele carregou-o. Ajudei com a cadeira de rodas até que José estivesse acomodado no seu possante. E por incrível que pareça, essa despedida foi um oferecimento da MPB FM que, com tantas músicas disponíveis, escolheu dedicar àquele momento: “Aquarela” cantada por Toquinho.
Vai se ferrar, né?!
A questão é que na semana passada aquilo aconteceu. Ia do centro do Rio para Niterói. Tudo que eu esperava era uma viagem tranquila. Eis que no ponto seguinte, José adentra o coletivo com a ajuda do amigo e da cadeira de rodas. Isso mesmo. Seu nome era José e ele tinha um problema. Quer dizer. Seu nome era José e ele não tinha UM problema. José não tinha METADE das pernas. Ou seja, era meio problema.
Tentarei reproduzir abaixo, o desenrolar desse encontro com o máximo de precisão quanto ao conteúdo do diálogo. Lá vai:
José: Licença.
Eu acenei com a cabeça e sorri. Não tinha ouvido muito bem o que ele tinha me falado. Se José tivesse dito: “fala piranha”, eu teria sorrido sem saber.
J: Engarrafado, né?!
Sorri novamente e soltei a primeira coisa que eu sempre falo nessas horas.
- Pois é. Não anda.
(PUTA MERDA)
J: Ta ouvindo música?
Naquele momento percebi que José era esperto. Porque perceber que aqueles fios que desciam da minha orelha eram fones de ouvido foi bem perspicaz da parte dele. Porque eu poderia ter deixado o cabelo do ouvido crescer. Ou poderia estar sendo devorada pelo Alien com suas garras nojentas (o que seria uma lástima. Já que se Alien tb era um passageiro, poderia ter se sentado ao lado de José).
- Oi?
J: Ta ouvindo música?
S: To.
J: Que música?
Eu adoro a Beth Carvalho. Logo, tenho cd dela. E uma das canções que eu mais gosto foi uma regravação dela que eu acabara de ouvir.
- Andança.
(PUTA MERDA)
J: Andança..Andança é do Dorival Caymmi. Grande compositor..
S: É. Baiano, mas tinha um pé no Rio. Um pé não..os dois né? Já que ele morou aqui por muito tempo..
Ao final da frase eu dei uma risadinha pra ser simpática e explicar o trocadilho, mas a risada logo se foi quando meus olhos bateram no toquinho das pernas. Foi um choque de realidade.
J: Eu gosto de Caymmi. Gosto muito da Bahia. Já morei lá.
S: Ah, legal. Minha mãe é de lá (frase curinga para qualquer pessoa que diga gostar da Bahia de Todos os Santos)
J: Morei dos 5 aos 17 anos. Trabalhava numa fábrica. Foi lá que eu sofri o acidente. Uma explosão no (PAUSA: ele me falou o nome da máquina, mas eu não me lembro) e eu fiquei assim.
Dei uma olhada de novo para bancar a interessada. Mas eu já sabia...
J: Era para eu estar morto. Dei sorte...
Pois é. Quase perguntei se essa sorte vinha de algum pé de coelho, mas desisti.
S: É né...Ah, mas o importante é que o senhor está vivo. Pior seria se o senhor quisesse ser jogador de futebol. Mas como trabalhava numa fábrica, não fica impedido de exercer a profissão..
J: Meu sonho era ser jogador de futebol. Eu até jogava no time da região e tinha futuro.
(PUTA MERDA)
S: Ah, mas bola pra frente. Tudo vai dar certo. O importante é que o senhor se reergueu. Quando a gente cai precisa ficar de pé.
(PUTA MERDA)
J: Você não vê esse goleiro Bruno. O rapaz tinha tudo na vida e jogou fora.
S: Pois é. Pisou na bola feio. Quantos garotos esperam por uma chance pra jogar no Flamengo, chegar onde ele chegou. Ele mesmo. Demorou muito pra ser o melhor goleiro do Brasil na época. Andou, andou e morreu na praia (ok, o certo é nadou. Mas quem disse que eu lembrei?)
J: Só se fala nisso. E o corpo da mulher? Será que ela está viva?
S: Sei lá. Se me disserem que sim, eu acredito. Se me disserem que não, também. Não duvido de mais nada. Ainda acho que tem muita coisa mal explicada, sem pé nem cabeça.
J: Mas a policia fala que o cabeça é o Bruno.
S: Verdade. Cabeça tem, só não tem o pé...
Olho pro cotoco das pernas e quero morrer.
J: Ta que nem eu (riso)
Soltei uma gargalhada na hora. Meio que por surpresa, meio que por nervoso. Mas ali não ria pela desgraça alheia e sim, pela graça alheia. Nisso, José surgiu com um jornal dobrado e perguntou se eu queria ler. Peguei-o. Desculpe. Eu escrevi jornal? Quis dizer “Meia Hora”. Após dar uma passada pela primeira página que sem dúvidas, se torcida em um balde renovaria o estoque de sangue do Hemorio, quis bancar a simpática e falei:
S: Aqui ta falando daquela namorada do Bruno. A tal da Fernanda..
J: Ah, é? Onde que eu não vi?
S: Aqui no pé da página..
(OI?)
Enquanto José lia, vi que o cadaço do meu All Star estava frouxo e resolvi apertá-lo.
J: Desamarrou?
S: Ta quase.
J: Você amarra seu tênis de um jeito diferente.
S: É, eu não costumo amarrar muito forte porque dói o meu joanete. Sabe quando o dedo mindinho fica apertando no sapato...
Antes de terminar a frase, me dei conta do que estava falando e me apeguei a primeira coisa que vi pela frente. Estava na página da Gata do Meia Hora e aquela bunda foi a minha salvação.
S: O senhor vê, essas meninas mostram a bunda como se dessem “bom dia”. Qual o respeito que elas podem querer? E tem uma mais feia que a outra. Teve uma vez que uma garota posou com uma tanga de oncinha..ridícula.
J: A minha sobrinha já posou...Mas não precisa ficar com vergonha não, eu tb não sou a favor não. Já falei com ela que a gente só consegue um futuro com emprego.
S: É, tem que correr atrás se não a vida passa e você fica olhando sentado...
(PUTA MERDA). Mudando de assunto...
S: Então, acho que o trânsito ta bem melhor. Vai ver foi algum acidente. Tem sempre um imbecil ruim de roda
Olho pra cadeira de rodas...
S: Mas tem gente muito boa também (tentando consertar a merda). Ah e sobre o caso Bruno, também tem essa questão do menor dar vários depoimentos né. A cada hora ele mente mais
J: Parece que uma hora ele fala uma coisa. Disse que apanhou da polícia, mas disseram que era mentira.
S: Claro que é. E logo viram que era safadeza dele. A mentira tem perna curta..
Antes que eu tentasse consertar isso também já tínhamos chegado ao ponto do José. Ele gentilmente se despediu e apesar de todas as minhas gafes, disse que foi um prazer ter me conhecido. O ônibus parou e o amigo dele carregou-o. Ajudei com a cadeira de rodas até que José estivesse acomodado no seu possante. E por incrível que pareça, essa despedida foi um oferecimento da MPB FM que, com tantas músicas disponíveis, escolheu dedicar àquele momento: “Aquarela” cantada por Toquinho.
Vai se ferrar, né?!
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